Para você, o título desse post pode não fazer nenhum sentido, mas o fará para ele. E é sobre ele que eu quero falar agora.
Existe um homem. Ele existe desde sempre, desde que eu posso falar sobre mim mesma como mulher. Não apenas por ter sido o primeiro a me mostrar o que realmente significava o sexo e com isso todas as minhas taras e pequenas perversões. Mas por ter despertado os primeiros sentimentos profundos, tão reais que não se evaporaram nem com o tempo, nem com o fato de ele ter elegido outra mulher para envelhecer com, muito menos com as pequenas e tolas discussões.
Esse homem existe e tem uns olhos negros que até hoje, quando vejo, não consigo deixar de mergulhar neles. E tem toda uma expressão de orgulho, de dignidade quase cruel que mexe com meu corpo de um modo que nenhum outro homem consegue fazer. E ele nem quer, imaginem se quisesse. Falando assim parece se tratar de um homem mau. Nada disso. Ele é forte e como todo homem forte é capaz da crueldade necessária.
Mas grande parte do tempo sua presença é de uma generosidade e gentileza quase irresistíveis. Quem não o conhece de verdade, entretanto, não faz idéia do que ele é capaz. Imaginam que ele é só essa pessoa bem humorada e fofinha. Falo tanto de dureza quanto de ternura. Eu tenho o orgulho de ter provado ambos. O orgulho insuportável dos poucos que chegaram perto demais.
Outra noite sonhei com ele. Tínhamos tempo um para o outro e um espaço só nosso. Onde tomávamos chá com biscoitinhos doces muito finos, sobre uma mesa muito bem posta, toalhas brancas, prataria e porcelanas. Tudo muito fino, muito irreal, muito cheio de tudo aquilo para o que não damos importância nas nossas vidas reais.
Mas o mais importante era o tempo que tínhamos. Para nos deliciar falando de literatura (nosso assunto mais recorrente), arte, de nós mesmos. E da mesma forma que mergulho em seus olhos, me sentia mergulhada em seu afeto, a cada gole, a cada palavra. Não, o sonho não tinha nada de sexual. Hoje em dia, nem mesmo os sonhos. Porque descobri que ele é profundo seguidor de uma fidelidade, e tanto mais o tenho quando menos pretendo possuí-lo. Até mesmo eu precisei me convencer um dia que existem nesse mundo coisas que valem muito mais do que sexo.
Quando contei do sonho para ele, fui recebida com brevidade, quase frieza. Não que ele não se importe, mas para ele não faz sentido esse excesso todo de tempo. O real do que temos basta, e é tudo. Ele não tem esse tempo todo nem para a própria familia, que dirá. Ele tem uma vida centrada e com espaço para tudo, eu sou apenas mais do que ele mesmo esperava da vida. Uma espécie de bônus. Essas fantasias de ilimitadas demandas de afeto só cabem na minha vida torta e cheia de lacunas.
Não há nada de maldoso nessa reação dele. Ele é apenas um vulcano que tem sérios problemas em entender o funcionamento dos meus excessivos e turbulentos mares de sentimento humanos. Mas que se afeiçoou, ainda assim.
E se tornou, para mim, uma pessoa-talismã. Mesmo quando não conseguimos nos falar, sei que ele está ali. Ainda que ele se intrigue com a esponja encharcada de sentimento na minha alma. E pense que minha escrita é clariceana e umbiguista demais. Estamos um no outro, morremos com isso. Paris é uma cidade linda.
