O Ministério das Relações Parisienses adverte: a leitura desse post pode causar profundo constrangimento

Para você, o título desse post pode não fazer nenhum sentido, mas o fará para ele. E é sobre ele que eu quero falar agora.

Existe um homem. Ele existe desde sempre, desde que eu posso falar sobre mim mesma como mulher. Não apenas por ter sido o primeiro a me mostrar o que realmente significava o sexo e com isso todas as minhas taras e pequenas perversões. Mas por ter despertado os primeiros sentimentos profundos, tão reais que não se evaporaram nem com o tempo, nem com o fato de ele ter elegido outra mulher para envelhecer com, muito menos com as pequenas e tolas discussões.

Esse homem existe e tem uns olhos negros que até hoje, quando vejo, não consigo deixar de mergulhar neles. E tem toda uma expressão de orgulho, de dignidade quase cruel que mexe com meu corpo de um modo que nenhum outro homem consegue fazer.  E ele nem quer, imaginem se quisesse. Falando assim parece se tratar de um homem mau. Nada disso. Ele é forte e como todo homem forte é capaz da crueldade necessária.

Mas grande parte do tempo sua presença é de uma generosidade e gentileza quase irresistíveis. Quem não o conhece de verdade, entretanto, não faz idéia do que ele é capaz. Imaginam que ele é só essa pessoa bem humorada e fofinha. Falo tanto de dureza quanto de ternura. Eu tenho o orgulho de ter provado ambos. O orgulho insuportável dos poucos que chegaram perto demais.

Outra noite sonhei com ele. Tínhamos tempo um para o outro e um espaço só nosso. Onde tomávamos chá com biscoitinhos doces muito finos, sobre uma mesa  muito bem posta, toalhas brancas, prataria e  porcelanas. Tudo muito fino, muito irreal, muito cheio de tudo aquilo para o que não damos importância nas nossas vidas reais.

Mas o mais importante era o tempo que tínhamos. Para nos deliciar falando de literatura (nosso assunto mais recorrente), arte, de nós mesmos. E da mesma forma que mergulho em seus olhos, me sentia mergulhada em seu afeto, a cada gole, a cada palavra. Não, o sonho não tinha nada de sexual. Hoje em dia, nem mesmo os sonhos.  Porque descobri que ele é profundo seguidor de uma fidelidade, e tanto mais o tenho quando menos pretendo possuí-lo. Até mesmo eu precisei me convencer um dia que existem nesse mundo coisas que valem muito mais do que sexo.

Quando contei do sonho para ele, fui recebida com brevidade, quase frieza. Não que ele não se importe, mas para ele não faz sentido esse excesso todo de tempo. O real do que temos basta, e é tudo. Ele não tem esse tempo todo nem para a própria familia, que dirá. Ele tem uma vida centrada e com espaço para tudo, eu sou apenas mais do que ele mesmo esperava da vida. Uma espécie de bônus. Essas fantasias de ilimitadas demandas de afeto só cabem na minha vida torta e cheia de lacunas.

Não há nada de maldoso nessa reação dele. Ele é apenas um vulcano que tem sérios problemas em entender o funcionamento dos meus excessivos e turbulentos mares de sentimento humanos. Mas que se afeiçoou, ainda assim.

E se tornou, para mim, uma pessoa-talismã. Mesmo quando não conseguimos nos falar, sei que ele está ali. Ainda que ele se intrigue com a esponja encharcada de sentimento na minha alma. E pense que minha escrita é clariceana e umbiguista demais. Estamos um no outro, morremos com isso. Paris é uma cidade linda.

O movimento é cada vez mais pra dentro, pra dentro. Cada vez mais eu desdesejo a invasão do outro. Cada vez mais eu quero o silêncio. Se hoje eu me comunico com você, se eu te procuro para conversar de alguma forma, se eu te respondo quando você diz, saiba que você é uma pessoa muito especial. Uma pessoa não invasiva, uma pessoa cuja palavra me dá muito prazer, uma pessoa para quem minha carência ainda concede espaço.

Mas como eu dizia, o movimento é para dentro, para dentro. Passei por muitos salões amplos e iluminados,  por cantinhos bem decorados e aconchegantes, mas estou muito perto do porão.

Eu ainda não abri a porta, mas sei que lá o cheiro é de mofo e que de lá ainda minha muita água má e escura. Continuo volteando na luz, mas sei que entrar lá, limpar e escoar tudo está marcado para breve. E vai continuar minando mais e mais, porque essas coisas não se resolvem da noite para o dia.

Ainda não abri a porta, mas a vejo e sua maçaneta me deixa em estado de alerta.

Tenho tantos compromissos com o mundo lá fora e não sei simplesmente romper. Tenho que ir lá. Mas meu desejo é me afastar, não me expor, envergar negro e me concentrar sobre a cama, me preparando para a batalha com o porão. Puxam-me para fora e eu não quero sair. Também não quero tocar naquela água suja novamente, mas sei que é necessário – antes que ela suba as escadas degrau por degrau e invada a casa toda.

Anjos

Este mundo está lotado de anjos de pele muito humana, de cheiro de gente.  Anjos nos rostos mais insuspeitos.

Os antigos acreditavam que as pessoas de cabelo vermelho tinham parte com o demo. Pois eu conheci um anjo ruivo.

Um anjo que conheceu uma suspeita de câncer e para o qual o médico deu 15 dias de vida. E que rompeu o ligamento do joelho quando pensava em futebol profissional. Um anjo que largou tudo para cuidar da depressão de outra pessoa. E que descobriu a síndrome do pânico no próprio cérebro.

Mas indiscutivelmente anjo, mais do que qualquer um que fique voejando acima das nuvens. Que iluminou minha vidinha por dois dias. E pra não esquecer eu escrevo nesse blog-memória. Porque essas são as coisas que a gente não pode mesmo esquecer.

Do que vem de dentro

Ando muito ocupada, estudando muito. Literatura, dança, música, a mim mesma.

E tenho vivido alguns dos dias mais felizes da minha vida. Acabo concluindo que vivo muito melhor sem envolvimento romântico.

Há uns anos atrás, um dos melhores amigos que tenho no mundo me deu um conselho muito útil: que eu deveria descobrir coisas que me dessem prazer, independente de qualquer outra pessoa nesse mundo. Uma felicidade toda minha, sem vínculos com mais ninguém.

Quando ele me disse, parecia impossível para mim. Eu era vinculada demais, em gente demais. Mas hoje é exatamente em função desses prazeres que eu vivo.

Não que não tenha contato com pessoas. Tenho, claro. Mas só as que me dão prazer. As que me prejudicam de algum modo ou me deixam tensa eu não preciso mais. E mesmo as que me dão prazer, eu não preciso. Eu aprecio, mas não vivo em torno delas. Se alguma delas se for, minha vida não acaba.

O problema de se descobrir essa possibilidade, é que não se quer sair dela. Dá muita preguiça de se envolver com alguém. Para que? Dá um trabaaaaalho. Toma tanto… tempo. E o tempo de repente ficou tão precioso.

Reflexões sobre um encontro casual

Eu estava lá, em frente ao meu local-de-aulas-de-dança, esperando a profe chegar. Tinha tido um compromisso lá perto e cheguei cedo demais. Com alguma – mas não exagerada – surpresa, vi você passando pelo outro lado da rua. A expressão de visível abalo emocional foi transparente para mim. Depois dos olhos arregalados e tremor nos lábios, você fincou os olhos no chão e seguiu seu caminho com cara contrariada, até sair do meu campo de visão. Dava pra ler no seu rosto: “Que bom seria se ela não existisse, não morasse na mesma cidade que eu.” E que bom seria se eu não mexesse mais com você, não é? Quando o olhei, foi sem expressão. Evitei olhar na sua direção com pena de seu constrangimento. Quando terminou de passar, fiquei olhando até você sumir e não pude deixar de sussurrar um “bundão!”, de duplo sentido, e dar risada.

Foi bom ver que você já não causa o impacto de antes em mim. Nada de sobressalto, frio nas mãos, coração batendo. Quando meus olhos encontraram seu rosto transtornado,  meu cérebro apenas me informou: “Ah! É ele.”, como eu me diria sobre qualquer pessoa que, de repente, reconhecesse. Meses depois, a paixão se foi. Você não me desestabiliza mais. A vida não pára mais em torno de você. Meus hormônios não reagem mais ao seu estímulo.

Mas claro que esse encontro me fez pensar. Porque é verdade que eu amei você. E também é verdade que eu nunca deixo de amar uma pessoa, uma vez que chegue a esse ponto. Portanto é verdade que eu ainda te amo, ainda que sem paixão, sem perspectiva, sem foco. Você foi o primeiro homem que eu amei pelo que poderia ter sido. Eu via tão claramente todos os sentimentos decentes que você tem e morre de medo de. Os sentimentos que você sufocou e se esforçou para matar – não se importando de correr o risco de me matar junto. Eu devia sentir ódio de você por tudo que você fez conscientemente para me ferir. Mas eu tenho pena, tenho uma pena gigantesca da sua fragilidade. Da sua pequenez. Da sua personalidade sem remédio. Eu devia odiar, mas não consigo. Porque não se pode odiar uma pessoa por ser emocionalmente burra. É como odiar alguém por ser canhoto ou cego.

E boa parte da culpa é minha, claro. Cega pelos impulsos mais primitivos, cometi a estultice de tentar convencer você a ter alguma inteligência emocional, alguma coerência. Pode-se convencer alguém a ser destro? Ou a enxergar? Não, quem estava realmente cega era eu.

Mas é que eu queria tão desesperadamente dar algum sentido para essa sua vida vazia! E o pior é que sei hoje que foi disso que você teve mais medo. Essa sua vidinha medíocre, de casa para o trabalho, do trabalho para casa, de casa para o bar, do bar de volta para casa e tudo de novo. Procurando desesperadamente pelas bebidas raras e caras em que você gasta seu salário nada exorbitante enquanto ainda se escora economicamente nos pais. (Bebidas que, sim, eu também aprecio e achei divertido aprender sobre com você. Mas era só isso. Diversão.) Escrevendo sobre elas para praticamente ninguém. Ninguém que dê atenção ou importância para ler até o fim ou comentar o que você escreve. Ficando, quiçá trepando (só eu sei o que significa esse “quiçá”), com mulheres que você não respeita e larga antes de se envolver, porque são todas “interessantes”, mas nenhuma é a ideal, porque você sabe tão bem quanto eu que seu ideal não existe…

Eu queria dar sentido, eu queria dar significância. Eu queria que você conhecesse literatura de verdade, música de verdade, cinema de verdade, como um dia te mostrei a dança de verdade e te deixei maravilhado. Que você visse a vida além dos videogames e das festas nerds. Eu queria que a arte real o tocasse e o transformasse numa pessoa melhor, uma pessoa acima da linha da mediocridade. Que entendesse que o homem não é só corpo físico, que procurasse alguma coisa, qualquer coisa, que o tornasse melhor como ser humano, que aperfeiçoasse algo além do seu paladar e demais sentidos. Eu nem pretendia te tirar nada: nem as cervejas, nem as fubangueadas, nem os games ou as piadas sexistas. Eu só queria acrescentar algo que valesse realmente a pena. Que trouxesse a tona esse menino decente, doce, carinhoso e bom, que, por incrível que possa parecer, dorme dentro de você, bem no fundo.

O incrível é que, com toda sua ignorância das coisas fundamentais dessa vidinha de meu Deus, com toda sua mediocridade, com toda sua pungente fragilidade, com toda sua agressividade cega, eu continuo amando você. O que é quase uma injustiça com os homens fantásticos – profundos, sensíveis, dedicados, brilhantes, generosos – que amo na minha vida. Mas não é algo que eu tenha podido escolher. Se pudesse, não te odiaria, mas te ignoraria profundamente. E por não poder, lamento tanto por você. Tanto, tanto.

Você me roubou

Cinco meses. Você roubou cinco meses da minha vida com sua galanteria desajeitada, sua sensualidade reprimida, sua grosseria, sua falta de tato, sua covardia.

Mas agora acabou. Não lembro mais do seu focinho quando passo pelos lugares onde estivemos juntos, recuperei o gosto pelas coisas que fazia antes de você colidir com minha rota: minhas aulas de dança e música, minha busca de autoconhecimento, minha casa e minhas gatas, meu novo projeto de mestrado, meus bons e poucos amigos. Renasci.

Ou melhor: voltei exatamente ao ponto de onde parti. O que quer dizer: a uma vida que eu gosto de viver em cada um dos seus dias. Uma vida despoluída de dor.

Como diria Chico: “quando você me quiser rever/ já vai me encontrar refeita/ pode crer”…

Sol de primavera

O clima aqui está mais ameno. Tivemos dias de calorzinho, gostosos, de poder tirar os vestidos do armário e caminhar contra o vento.

Em um evento… hmm, eclético, numa palestra, uma sacerdotisa da Wicca nos ensinou que “a semente escolhida no inverno vai brotar na primavera”. Sabe assim, quando alguém diz uma frase como outra qualquer, mas em vez de sair por outro ouvido ela acha um lugar no seu coração? Foi assim.

A primavera nem entrou oficialmente ainda, onde fui a uma comemoração linda que marcou a entrada de setembro – se não o começo da primavera, ao menos o final do inverno. Eu sou nascida no outono, de Rato, me dou bem em celeiros cheios e tempos de fartura. O inverno me joga para dentro violentamente.

O que eu queria  dizer com isso tudo é que está se configurando uma primavera de cura para mim. De cura na vida, de cura na alma, de cura na dança. A vida está vindo e me ofertando, generosamente.

E acho tudo isso muito bom.

Procuro parceria

Eu tenho me sentido muito sozinha, sabe? Tenho amigos, vários, mas tenho sentido falta de parceria.

Sabe parceiro? Aquela pessoa que te liga qualquer do dia ou da noite para fofocar, botar o papo em dia, ou porque viu algo no shopping que achou a sua cara? Alguém que você sabe que pode ligar a qualquer hora porque tem MUITO PRAZER em ouvir sua voz e o que você tem a dizer?

Aquela pessoa que conhece seus defeitos, mas não te atira eles na cara. Que não te conta suas dificuldades como se você não as superasse apenas por não ter sido informada delas.

Não sei se é possível ter um relacionamento sexual com alguém assim e funcionar também. Se for, ótimo. Mas acho mais fácil ser amizade,  porque sexo acaba, mas amizade não. Sei lá.

Você tem parceiros? Me conta como é?

Eu que idealizo demais ou as pessoas fogem de mim mesmo porque eu sou como sou?

E não que não me dê bem comigo mesma, me dou. O único problema é que eu conheço minhas novidades e geminiano precisa de interlocução.

Blah.

Piada interna de mau gosto

Tudo bem que eu estou lendo Freud – sim, A Interpretação dos Sonhos – e isso deve ser demais pro meu pobre psiquismo de amebinha.

Mas sonhar estar casando com você – coisa que nunca desejei nem acordada - com direito a festa, vestido branco, meio smoking, todos os amigos torcendo, música do Nando Reis de trilha (você achava que tinha  a ver com nossa história… – não, não sei qualé nem se existe), minha mãe numa cadeira de rodas, felicidade e amor de pombinhos – foi a anedota subconsciente do século.

Meda.

Aniversário atrasado

Ontem, esse blog improvável de pseudônimo  completou um ano. Ocupada que estava em observar as coisas de dentro, nem percebi.

Obrigada por terem me acompanhado por todo esse tempo nessa estrada por vezes penosa, por vezes hermética, por vez piegas. Sobretudo pesssoal.

Parabéns pra nós todos.