Reflexões sobre um encontro casual

Eu estava lá, em frente ao meu local-de-aulas-de-dança, esperando a profe chegar. Tinha tido um compromisso lá perto e cheguei cedo demais. Com alguma – mas não exagerada – surpresa, vi você passando pelo outro lado da rua. A expressão de visível abalo emocional foi transparente para mim. Depois dos olhos arregalados e tremor nos lábios, você fincou os olhos no chão e seguiu seu caminho com cara contrariada, até sair do meu campo de visão. Dava pra ler no seu rosto: “Que bom seria se ela não existisse, não morasse na mesma cidade que eu.” E que bom seria se eu não mexesse mais com você, não é? Quando o olhei, foi sem expressão. Evitei olhar na sua direção com pena de seu constrangimento. Quando terminou de passar, fiquei olhando até você sumir e não pude deixar de sussurrar um “bundão!”, de duplo sentido, e dar risada.

Foi bom ver que você já não causa o impacto de antes em mim. Nada de sobressalto, frio nas mãos, coração batendo. Quando meus olhos encontraram seu rosto transtornado,  meu cérebro apenas me informou: “Ah! É ele.”, como eu me diria sobre qualquer pessoa que, de repente, reconhecesse. Meses depois, a paixão se foi. Você não me desestabiliza mais. A vida não pára mais em torno de você. Meus hormônios não reagem mais ao seu estímulo.

Mas claro que esse encontro me fez pensar. Porque é verdade que eu amei você. E também é verdade que eu nunca deixo de amar uma pessoa, uma vez que chegue a esse ponto. Portanto é verdade que eu ainda te amo, ainda que sem paixão, sem perspectiva, sem foco. Você foi o primeiro homem que eu amei pelo que poderia ter sido. Eu via tão claramente todos os sentimentos decentes que você tem e morre de medo de. Os sentimentos que você sufocou e se esforçou para matar – não se importando de correr o risco de me matar junto. Eu devia sentir ódio de você por tudo que você fez conscientemente para me ferir. Mas eu tenho pena, tenho uma pena gigantesca da sua fragilidade. Da sua pequenez. Da sua personalidade sem remédio. Eu devia odiar, mas não consigo. Porque não se pode odiar uma pessoa por ser emocionalmente burra. É como odiar alguém por ser canhoto ou cego.

E boa parte da culpa é minha, claro. Cega pelos impulsos mais primitivos, cometi a estultice de tentar convencer você a ter alguma inteligência emocional, alguma coerência. Pode-se convencer alguém a ser destro? Ou a enxergar? Não, quem estava realmente cega era eu.

Mas é que eu queria tão desesperadamente dar algum sentido para essa sua vida vazia! E o pior é que sei hoje que foi disso que você teve mais medo. Essa sua vidinha medíocre, de casa para o trabalho, do trabalho para casa, de casa para o bar, do bar de volta para casa e tudo de novo. Procurando desesperadamente pelas bebidas raras e caras em que você gasta seu salário nada exorbitante enquanto ainda se escora economicamente nos pais. (Bebidas que, sim, eu também aprecio e achei divertido aprender sobre com você. Mas era só isso. Diversão.) Escrevendo sobre elas para praticamente ninguém. Ninguém que dê atenção ou importância para ler até o fim ou comentar o que você escreve. Ficando, quiçá trepando (só eu sei o que significa esse “quiçá”), com mulheres que você não respeita e larga antes de se envolver, porque são todas “interessantes”, mas nenhuma é a ideal, porque você sabe tão bem quanto eu que seu ideal não existe…

Eu queria dar sentido, eu queria dar significância. Eu queria que você conhecesse literatura de verdade, música de verdade, cinema de verdade, como um dia te mostrei a dança de verdade e te deixei maravilhado. Que você visse a vida além dos videogames e das festas nerds. Eu queria que a arte real o tocasse e o transformasse numa pessoa melhor, uma pessoa acima da linha da mediocridade. Que entendesse que o homem não é só corpo físico, que procurasse alguma coisa, qualquer coisa, que o tornasse melhor como ser humano, que aperfeiçoasse algo além do seu paladar e demais sentidos. Eu nem pretendia te tirar nada: nem as cervejas, nem as fubangueadas, nem os games ou as piadas sexistas. Eu só queria acrescentar algo que valesse realmente a pena. Que trouxesse a tona esse menino decente, doce, carinhoso e bom, que, por incrível que possa parecer, dorme dentro de você, bem no fundo.

O incrível é que, com toda sua ignorância das coisas fundamentais dessa vidinha de meu Deus, com toda sua mediocridade, com toda sua pungente fragilidade, com toda sua agressividade cega, eu continuo amando você. O que é quase uma injustiça com os homens fantásticos – profundos, sensíveis, dedicados, brilhantes, generosos – que amo na minha vida. Mas não é algo que eu tenha podido escolher. Se pudesse, não te odiaria, mas te ignoraria profundamente. E por não poder, lamento tanto por você. Tanto, tanto.

Você me roubou

Cinco meses. Você roubou cinco meses da minha vida com sua galanteria desajeitada, sua sensualidade reprimida, sua grosseria, sua falta de tato, sua covardia.

Mas agora acabou. Não lembro mais do seu focinho quando passo pelos lugares onde estivemos juntos, recuperei o gosto pelas coisas que fazia antes de você colidir com minha rota: minhas aulas de dança e música, minha busca de autoconhecimento, minha casa e minhas gatas, meu novo projeto de mestrado, meus bons e poucos amigos. Renasci.

Ou melhor: voltei exatamente ao ponto de onde parti. O que quer dizer: a uma vida que eu gosto de viver em cada um dos seus dias. Uma vida despoluída de dor.

Como diria Chico: “quando você me quiser rever/ já vai me encontrar refeita/ pode crer”…

Sol de primavera

O clima aqui está mais ameno. Tivemos dias de calorzinho, gostosos, de poder tirar os vestidos do armário e caminhar contra o vento.

Em um evento… hmm, eclético, numa palestra, uma sacerdotisa da Wicca nos ensinou que “a semente escolhida no inverno vai brotar na primavera”. Sabe assim, quando alguém diz uma frase como outra qualquer, mas em vez de sair por outro ouvido ela acha um lugar no seu coração? Foi assim.

A primavera nem entrou oficialmente ainda, onde fui a uma comemoração linda que marcou a entrada de setembro – se não o começo da primavera, ao menos o final do inverno. Eu sou nascida no outono, de Rato, me dou bem em celeiros cheios e tempos de fartura. O inverno me joga para dentro violentamente.

O que eu queria  dizer com isso tudo é que está se configurando uma primavera de cura para mim. De cura na vida, de cura na alma, de cura na dança. A vida está vindo e me ofertando, generosamente.

E acho tudo isso muito bom.

Procuro parceria

Eu tenho me sentido muito sozinha, sabe? Tenho amigos, vários, mas tenho sentido falta de parceria.

Sabe parceiro? Aquela pessoa que te liga qualquer do dia ou da noite para fofocar, botar o papo em dia, ou porque viu algo no shopping que achou a sua cara? Alguém que você sabe que pode ligar a qualquer hora porque tem MUITO PRAZER em ouvir sua voz e o que você tem a dizer?

Aquela pessoa que conhece seus defeitos, mas não te atira eles na cara. Que não te conta suas dificuldades como se você não as superasse apenas por não ter sido informada delas.

Não sei se é possível ter um relacionamento sexual com alguém assim e funcionar também. Se for, ótimo. Mas acho mais fácil ser amizade,  porque sexo acaba, mas amizade não. Sei lá.

Você tem parceiros? Me conta como é?

Eu que idealizo demais ou as pessoas fogem de mim mesmo porque eu sou como sou?

E não que não me dê bem comigo mesma, me dou. O único problema é que eu conheço minhas novidades e geminiano precisa de interlocução.

Blah.

Piada interna de mau gosto

Tudo bem que eu estou lendo Freud – sim, A Interpretação dos Sonhos – e isso deve ser demais pro meu pobre psiquismo de amebinha.

Mas sonhar estar casando com você – coisa que nunca desejei nem acordada - com direito a festa, vestido branco, meio smoking, todos os amigos torcendo, música do Nando Reis de trilha (você achava que tinha  a ver com nossa história… – não, não sei qualé nem se existe), minha mãe numa cadeira de rodas, felicidade e amor de pombinhos – foi a anedota subconsciente do século.

Meda.

Aniversário atrasado

Ontem, esse blog improvável de pseudônimo  completou um ano. Ocupada que estava em observar as coisas de dentro, nem percebi.

Obrigada por terem me acompanhado por todo esse tempo nessa estrada por vezes penosa, por vezes hermética, por vez piegas. Sobretudo pesssoal.

Parabéns pra nós todos.

Chorume

E algumas madrugadas ela vê brotar borbulhando, sem explicação aparente, aquela quantidade enorme de amor transparente do seu peito.

Inexplicavelmente, não por aquele que nutre e cuida – embora esse tenha sua boa cota – mas por aquele que só trouxe dor e destruição. Um amor que jamais, jamais chegará a seu destino – rejeitado na fonte. Então só lhe resta ver brotar e jogar fora, jogar fora, esperando o dia que a fonte seque.

Porque por mais bonito, cheiroso e de bom aspecto que seja, já nasceu para o descarte. Por mais amor que seja, nasceu lixo.

Cicatrizando

Estou praticamente uma pessoa normal de novo. Racional. Enfim, uma mulher inteira.

Ainda não cheguei no auge da minha atividade, ainda tenho longos períodos em que dormir é muito mais interessante que ficar acordada. Tenho sonhos ótimos.

Demorou mais ou menos um mês essa cicatrização emocional. Mas nada seria tão rápido se não fosse as maciças doses de carinho ministradas pelo Exposo. Não existe cicatrizante melhor.

Se eu não tenho vergonha e não me sinto culpada por esse tratamento, depois de viver um caso de amor com outra pessoa enquanto morava no apartamento dele? Não.

Porque eu não tive escolha. Porque eu não menti. Porque ele podia ter me botado para fora quando bem entendesse.

Mas parece que o carinho que temos um pelo outro é maior que tudo isso

Como cada um e todo mundo

Pessoa nefasta que saiu há pouco da minha vida está de aniversário. E está com outra pessoa. Como eu sei não vem ao caso.

E isso começou a doer muito, muito, ontem à noite. A ponto de dar duas da manhã e eu não conseguir dormir. Até que eu gritei pra migo mesma: “Não!” Não era possível. Não era um cara escroto num relacionamento superbreve que estava me deixando assim. E pouco me importava com quem ele estivesse, eu não tenho esse tipo de ciúme. Aí a porra da ficha caiu.

O problema não é ele ter ido – apesar de como sempre eu ter dado o meu melhor, apesar da violência da despedida e das agressões. A questão é que eu tenho 37, Exposo está dando outro rumo para sua vida, não posso confiar na minha família, mas, como todo mundo, não quero ficar sozinha.

Tão básico, não? Mas para mim teve o impacto de uma bofetada. Chorei um bocado, um choro soluçado que esperou muito para sair do meu peito. Só parei porque quase acordei o Exposo.

É tão patético. Tenho quase quarenta anos e quero um namorado. Alguém pra mandar torpedo no meio do dia, pra discutir as noticias do dia à noite, pra  planejar fim de semana. Porque talvez eu já tenha dito: nunca tive um.  Tive uma dezena de amantes e um marido. Namorado, não.

Sinto-me o cúmulo do banal. Um caso típico de psicanálise. Tenho vergonha de mim mesma.

Você juntou feridas e cicatrizes

Mas a dor um dia ameniza e você olha para o mundo. E se deu conta que enquanto era ferida por um, feria outro também.

Não, você não tinha como evitar. Não é questão de ser justo ou injusto. Tem coisas que estão na vida, sem licença.

E para se reerguer, você precisou incondicionalmente desse homem. E ele esteve lá. Quantas vezes? E quantas vezes estará?